Os clamores dos cavaleiros de ouro e sua luta enfurecida contra um de seus

 iguais eram abafados pelo estrondo das trovoadas. Nunca houvera uma

 tempestade tão forte como esta, onde a lua escondia-se para dar espaço às

 demasiadas nuvens. O céu estava aos prantos, zelando pela alma de Atena,o

 qual o corpo fora assassinado por aquele ser louro , jogado ao chão úmido com

 a face desfigurada pelo horror.

     — Milo de Escorpião, — Começou um dos cavaleiros presentes — Você nega

 então ter causado a morte de Atena ? Se resolver admitir o que fez, deixar-

no-emos partir, porém , se mentir , terá de suportar as conseqüências de sua

 mentira.


    
— Eu já disse — Respondeu a criatura quase num suspiro — não fui eu

 quem a matou.  Se me acusam de tal feito, significa que  em todos estes anos

 nunca me conheceram verdadeiramente.

    — Suas mãos banhadas de sangue não confirmam suas palavras. —

 Observou Aiolia, sem expressão.

Milo encarou-o por um longo instante. Um olhar inexpressivo, que fê-lo

 readquirir o sangue frio e, levantar-se num sobressalto. E logo quando o fez,

 sentiu uma mão carregada de fúria atingir-lhe o rosto. Por um triz não

 quebrara-lhe o nariz.

   Cambaleou de um lado procurando manter-se intacto, porém, outros dois

 socos atingiram-lhe a cintura para cima fazendo-o cair na grama molhada.

    Tentou soerguer-se com a força que lhe restava, mas já não havia nenhuma.

  Seu corpo tremia, mas não de frio. Sua cabeça girava e,chegou até mesmo a

 ouvir passos em sua direção. Passos lentos e pesados. Fechou os olhos por

 alguns segundos, e reabriu-os,erguendo-os à altura das sobrancelhas, vendo

 uma figura alta e sem expressão à sua frente. Pensou em enfrentá-lo, mas

 devido às circunstâncias, nada podia fazer senão permanecer ali. Contemplou

 a fria expressão de seu rosto,

 seu olhar gélido, e seus cabelos longos avermelhados como uma chama

 ardente agora molhados pela densa chuva, logo pôde reconhecer quem era:

 Camus de Aquário.

      Aldebaram interpôs-se  entre os dois, pronto para esmagar a figura jogada

 ao chão,entretanto, Camus impediu-o apenas com um aceno e disse em tom

 firme:

    — Deixem-no! Está feito. Não vale mais a pena, pois Atena já não está mais
 
entre nós.  — Dito isto, deu as costas para ele, caminhando em direção ao

 santuário com Milo acompanhando-o com o olhar.

Um rancor alastrou-se pelas entranhas do escorpiano,  fazendo-o levantar em

 sobressalto, surpreendendo os presentes. Seguiu seu caminho então pelas

 brumas que a tempestade formara.

Voltou seu olhar do ponto de partida, esperando encontrar o olhar gélido de

 Camus de Aquário, mas este,não olhou para trás. [...]

 

Milo chegou em casa ainda sentindo as dores lancinantes pelo corpo. 

Seguiu em direção ao quarto com plena dificuldade, e diante de sua cama,

 deixou-se cair sobre ela, mergulhando em sono profundo.


*                                                          *                                                               *

Depois de tantos anos no santuário, no fundo ele sabia que jamais se

 acostumaria com empregos normais. Além disso, Milo não tinha especificação

 em nenhuma área. Como poderia preparar-se assim tão de última hora? 
 
    O que mais torturava seus pensamentos era que, Camus não estava

 importando-se nem um pouco com ele. Apenas fez aquilo, não para livrá-lo de

 uma surra, mas porque deveras, eles não deviam perder tempo naquela cena.

 Aquilo de nada adiantaria. Deviam deixá-lo ir, para nunca mais vê-lo.

    Não estava conseguindo um emprego. Talvez fosse melhor voltar ao

 santuário e pedir perdão pelo que fez? E o que ele fez? Não fizera nada, se ao

 menos eles soubessem do que realmente aconteceu na sala do Mestre, o

 aceitariam de volta. Mas este dia estava longe de chegar, e talvez jamais

 chegaria.
 
   

    Enquanto isso, no santuário, Camus raramente fora visto depois do

 acontecido. Permanecia em seu trabalho horas à fio, tampouco comparecendo

 aos intervalos. Saía sempre cedo do trabalho; o que impossibilitava a chance
 
de alguém vê-lo sair.

Mu certa vez comentara com Aldebaram que, pelo fato do aquariano ser o

melhor amigo de Milo  ,comportava-se de tal maneira por estar inconformado

 com o caso.

 
    Uma hora da manhã, lá estava Camus, sentado em uma cadeira com o corpo

 extenuado, tendo nas mãos um copo contendo um líquido esverdeado já pela

 metade: era absinto. Jogava as cartas na mesa e apostava quantias absurdas,

 como quem não tem nada a perder.

    —Vincent, — Chamou, com a voz entorpecida pela bebida, enquanto

 desviava seus olhos brilhantes para o rosto de seu adversário  —Prepara mais

 uma pra mim.

     — Aqui está , Camus, vê se não vai exagerar como da última vez. — Teve

 que rir da cara de desagrado do ruivo perante o comentário.

    — Você bem sabe que não estava em um bom dia e que infelizmente

aconteceu. — terminou de falar e já foi virando o copo com a característica

 bebida que só Vincent sabia preparar.

    — Sei... Como aconteceu nas vezes anteriores também, né Camus? Olha que

 eu posso me negar a lhe preparar os drinks hein? — Brincou, soltando uma

 risada áspera pelo bigode louro.

 

E tendo finalmente o quarto copo de absinto Camargo em suas mãos,

 derramou-o de goela abaixo, bebendo tudo em um só gole. Sua cabeça

 rodava.  Cerrou os dentes,como se isto pudesse ajudá-lo a organizar seus

 pensamentos que lhe escapavam da mente à medida que a bebida surtia

 efeito. Mas a cada segundo que passava, sua vista desvanecia; e os rostos

 inexpressivos e desdenhosos ao redor dele, agora não existiam mais. Só

 restava a escuridão. Perdeu os sentidos.

     Sua cabeça latejava dolorosamente ao acordar e, ainda podia sentir o gosto

 amargo da bebida em seus lábios secos. Abriu os olhos — suas pálpebras

 doíam pela ressaca— procurando distinguir o local onde se encontrava. 

Estava sobre uma cama de forma circular. Um quarto vazio que , de certa

 forma, dava-lhe uma sensação de paz; A fresta da janela estava aberta, para

 deixar o vento acariciar seu rosto pálido como papel. Ainda estava escuro, e

 isto ele podia ver pelos pequenos pontos brilhantes que enfeitavam o céu.

 Sentou-se com dificuldade; Sua cabeça o impedia de ir muito  longe. Sua visão

 não estava tão nítida e, mesmo em tal estado ele se levantou, grogue , em

 direção à porta.  Teria caído se, não tivesse sido amparado naquele instante.

 Ainda sem forças, Camus ergueu os olhos e infiltrou-se pelas órbitas azul-

celeste do ser que o amparara.  Vislumbrou o mar dentro daqueles olhos.

Suas mãos haviam agarrado os músculos do indivíduo, e pelo peito dele,

 escorria uma cascata de cabelos louros.  Sabia exatamente de quem se

 tratava: era Milo de Escorpião.  Constrangido pelo estado em que se

 encontrava, afastou-se deste, desviando o olhar.

    —  Ora, ora Camus. Você sai para se embebedar e tampouco me convida,

 hein? Faz a festa sozinho e ainda deixa-se levar desmaiado pela multidão.

 O ruivo não demonstrou o quão perplexo estava por encontrar seu amigo em

 um lugar como o Cassino Royale. Não. Ele estava sonhando. Devia estar

 sonhando. Milo não poderia estar servindo de...

Gotículas de suor acumulavam-se em sua testa, agora escorrendo pela sua face

 inexpressiva. O louro não pôde distinguir quais eram suas emoções naquele

 momento.
    — Não tinha o direito de me tirar de lá. Eu estaria no Santuário agora se...

    — Talvez eu o devesse ter deixado que eles o socassem e , que outros

se aproveitassem de seu estado deplorável, não é?  Diabos me carreguem se

 você tivesse conseguido voltar ao Santuário ontem.

   — E talvez fosse melhor andar trôpego, sozinho pelos cantos ao estar nos

aposentos de um assassino — Retrucou Camus.

   — Já lhe ocorreu que daria o mesmo se você estivesse andando sozinho e

 trôpego pelas ruas? — Devolveu o loiro dando uma piscadela. — A diferença

 seria que o bandido não seria tão irresistível e tampouco teria um quarto tão

 luxuoso quanto o meu.

    — Sabe muito bem como posso liquidá-los em segundos.— Voltou-se o ruivo

 cerrando os punhos, não se deixando intimidar pelo cinismo do outro.
 
   — Não no estado em que se encontra.

   — Ah, duvidas, meu caro? — Desafiou o francês, erguendo uma das

 sobrancelhas.

   — Não está em condições, meu caro — Riu o loiro, divertido. — Poupe-se

 deste trabalho.

   — Está com medo de morrer congelado?

   — Adoraria morrer congelado — Provocou o grego, crispando os lábios e

 andando na direção de Camus.  — E você?  Gostaria de receber meu veneno,

 caro amigo?

   —  Diabo! — Vociferou o francês , o sangue fluindo pela face

pálida,  virou-se de imediato para esconder o rosto corado de Milo. — Talvez

 esta casa do pecado seja mesmo o seu lugar!

    Milo poderia tê-lo expulsado; não o fez. Ficou contemplando a feição rude de

 Camus. Sua feição demonstrava frieza e indiferença, como o de uma estátua

 esculpida que fora feita para ter sempre a mesma expressão.

     " É tão fácil para você falar Camus", pensou Milo sem dizê-lo, " pois não fora

 acusado injustamente por um crime que você jamais cometera, tampouco teve

 de renunciar à sua carreira e trocá-la por um meio de sobrevivência que, nem

 sequer posso chamá-la

de 'carreira'. Se ele ao menos soubesse o que sinto, o quanto me trás

 repugnância fazer isto... Sinto tanto, Camus. Mas não tenho escolha... não mais. “

     O aquariano virou-se para encará-lo, mas ao fazê-lo, deparou-se com uma

 cena em que não estava preparado: A camisa de seda branca e perfumada do

 grego deslizando lentamente sob seus ombros largos em uma câmera lenta

insuportável, revelando seus  músculos bronzeados cobertos por uma camada

 de óleo. Isto fez com que a postura do francês ficasse um tanto

 desconcertante. Sentiu gotículas de suor acumular-se em sua testa, partindo

 para o pescoço. Aquilo estava deixando-o atordoado. Como Milo poderia fazer

 isto com ele? Não, não agora.

    — O que está fazendo? — Rugiu o aquariano, sua voz saiu rouca.

    Milo voltou o olhar interrogativo para a figura corada à sua frente.

    —Arrumando-me, caro amigo. Esta noite promete ser longa. — Respondeu o

 loiro incisivo.

   Ah, mas como seria. Ele não sabia, mas estava certo.

 

CONTINUA ... ^^

Escrito por Blackmoon :]

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Personagens Milo de Escorpião e Camus de Aquário do Anime Cavaleiros do Zodíaco.