Milo
chegou em casa ainda sentindo as dores lancinantes pelo corpo.
Seguiu em direção ao quarto com plena dificuldade, e diante de sua cama,
deixou-se cair sobre ela, mergulhando em sono profundo.
*
* *
Depois de tantos anos no santuário, no fundo ele sabia que
jamais se
acostumaria com empregos normais. Além disso, Milo não tinha especificação
em nenhuma área. Como poderia preparar-se assim tão de última hora?
O que mais torturava seus pensamentos era que, Camus não estava
importando-se nem um pouco com ele. Apenas fez aquilo, não para livrá-lo
de
uma surra, mas porque deveras, eles não deviam perder tempo naquela cena.
Aquilo de nada adiantaria. Deviam deixá-lo ir, para nunca mais vê-lo.
Não estava conseguindo um emprego. Talvez fosse melhor voltar ao
santuário e pedir perdão pelo que fez? E o que ele fez? Não fizera nada,
se ao
menos eles soubessem do que realmente aconteceu na sala do Mestre, o
aceitariam de volta. Mas este dia estava longe de chegar, e talvez jamais
chegaria.
E
tendo finalmente o quarto copo de absinto Camargo em suas mãos,
derramou-o de goela abaixo, bebendo tudo em um só gole. Sua cabeça
rodava. Cerrou os dentes,como se isto pudesse ajudá-lo a organizar seus
pensamentos que lhe escapavam da mente à medida que a bebida surtia
efeito. Mas a cada segundo que passava, sua vista desvanecia; e os rostos
inexpressivos e desdenhosos ao redor dele, agora não existiam mais. Só
restava a escuridão. Perdeu os sentidos.
Sua cabeça latejava dolorosamente ao acordar e, ainda podia sentir o gosto
amargo da bebida em seus lábios secos. Abriu os olhos — suas pálpebras
doíam pela ressaca— procurando distinguir o local onde se encontrava.
Estava sobre uma cama de forma circular. Um quarto vazio que , de certa
forma, dava-lhe uma sensação de paz; A fresta da janela estava aberta,
para
deixar o vento acariciar seu rosto pálido como papel. Ainda estava escuro,
e
isto ele podia ver pelos pequenos pontos brilhantes que enfeitavam o céu.
Sentou-se com dificuldade; Sua cabeça o impedia de ir muito longe. Sua
visão
não estava tão nítida e, mesmo em tal estado ele se levantou, grogue , em
direção à porta. Teria caído se, não tivesse sido amparado naquele
instante.
Ainda sem forças, Camus ergueu os olhos e infiltrou-se pelas órbitas azul-
celeste do ser que o amparara. Vislumbrou o mar dentro daqueles olhos.
Suas mãos haviam agarrado os músculos do indivíduo, e pelo peito dele,
escorria uma cascata de cabelos louros. Sabia exatamente de quem se
tratava: era Milo de Escorpião. Constrangido pelo estado em que se
encontrava, afastou-se deste, desviando o olhar.
— Ora, ora Camus. Você sai para se embebedar e tampouco me convida,
hein? Faz a festa sozinho e ainda deixa-se levar desmaiado pela multidão.
O ruivo não demonstrou o quão perplexo estava por encontrar seu amigo em
um lugar como o Cassino Royale. Não. Ele estava sonhando. Devia estar
sonhando. Milo não poderia estar servindo de...
Gotículas de suor acumulavam-se em sua testa, agora escorrendo pela sua face
inexpressiva. O louro não pôde distinguir quais eram suas emoções naquele
momento.
— Não tinha o direito de me tirar de lá. Eu estaria no Santuário agora se...
— Talvez eu o devesse ter deixado que eles o socassem e , que outros
se aproveitassem de seu estado deplorável, não é? Diabos me carreguem se
você tivesse conseguido voltar ao Santuário ontem.
— E talvez fosse melhor andar trôpego, sozinho pelos cantos ao estar nos
aposentos de um assassino — Retrucou Camus.
— Já lhe ocorreu que daria o mesmo se você estivesse andando sozinho e
trôpego pelas ruas? — Devolveu o loiro dando uma piscadela. — A diferença
seria que o bandido não seria tão irresistível e tampouco teria um quarto
tão
luxuoso quanto o meu.
— Sabe muito bem como posso liquidá-los em segundos.—
Voltou-se o ruivo
cerrando os punhos, não se deixando intimidar pelo cinismo do outro.
— Não no estado em que se encontra.
— Ah, duvidas, meu caro? — Desafiou o francês, erguendo uma das
sobrancelhas.
— Não está em condições,
meu caro — Riu o loiro, divertido. — Poupe-se
deste trabalho.
— Está com medo de morrer congelado?
— Adoraria morrer
congelado — Provocou o grego, crispando os lábios e
andando na direção de Camus. — E você? Gostaria de receber meu veneno,
caro amigo?
— Diabo! —
Vociferou o francês , o sangue fluindo pela face
pálida, virou-se de imediato para esconder o rosto corado de Milo. — Talvez
esta casa do pecado seja mesmo o seu lugar!
Milo poderia tê-lo
expulsado; não o fez. Ficou contemplando a feição rude de
Camus. Sua feição demonstrava frieza e indiferença, como o de uma estátua
esculpida que fora feita para ter sempre a mesma expressão.
" É tão fácil
para você falar Camus", pensou Milo sem dizê-lo, " pois não fora
acusado injustamente por um crime que você jamais cometera, tampouco teve
de renunciar à sua carreira e trocá-la por um meio de sobrevivência que,
nem
sequer posso chamá-la
de 'carreira'. Se ele ao menos soubesse o que sinto, o quanto me trás
repugnância fazer isto... Sinto tanto, Camus. Mas não tenho escolha... não
mais. “
O aquariano virou-se para encará-lo, mas ao fazê-lo, deparou-se com uma
cena em que não estava preparado: A camisa de seda branca e perfumada do
grego deslizando lentamente sob seus ombros largos em uma câmera lenta
insuportável, revelando seus músculos bronzeados cobertos por uma camada
de óleo. Isto fez com que a postura do francês ficasse um tanto
desconcertante. Sentiu gotículas de suor acumular-se em sua testa,
partindo
para o pescoço. Aquilo estava deixando-o atordoado. Como Milo poderia
fazer
isto com ele? Não, não agora.
— O que está fazendo? —
Rugiu o aquariano, sua voz saiu rouca.
Milo voltou o olhar interrogativo para a figura corada à sua frente.
—Arrumando-me, caro
amigo. Esta noite promete ser longa. — Respondeu o
loiro incisivo.
Ah, mas como seria. Ele não sabia, mas estava certo.
CONTINUA ... ^^
Escrito por Blackmoon :]
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Comentem, e eu faço mais fics :)
Personagens Milo de Escorpião e Camus de Aquário do Anime Cavaleiros do Zodíaco.